terça-feira, 12 de agosto de 2008

Paulo Afonso - BA - 50 anos - Histórias de pioneiros



CADERNO ESPECIAL DE PAULO AFONSO - 50 anos


do Jornal FOLHA SERTANEJA - Edição 53 - Julho/2008

A origem do nome Paulo Afonso



A origem do nome Paulo Afonso, dado às grandes quedas d´água do rio São Francisco na divisa dos Estados da Bahia e Alagoas, tem versões contraditórias, algumas delas de sabor puramente popular, sem nenhuma fundamentação histórica. Fala-se de exploradores ligados à expedição de Martin Afonso de Souza, um deles chamado Paulo Afonso, que a teria descoberto em 1553. Ou ainda de dois padres – Paulo e Afonso – que teriam sido engolidos pelas águas da grande cachoeira, quando desciam o rio São Francisco em tosco barco de madeira.
Estudiosos afirmam que, até 1725, não há nenhum registro, nos arquivos do Brasil e de Portugal, que se refira a estas quedas d´água como o nome de Paulo Afonso. As quedas eram até então conhecidas como Sumidouro, Cachoeira Grande e Forquilha.
Em 3 de outubro de 1725 o português Paulo de Viveiros Afonso recebeu uma sesmaria, nas terras da província de Pernambuco, cujo limite é exatamente o rio São Francisco, na região das grandes cachoeiras. Estendendo seus limites para o outro lado do rio, Paulo Viveiros Afonso teria criado, em terras baianas, o arraial que ficou conhecido como Tapera de Paulo Afonso.
As terras ribeirinhas da Cachoeira, ao longo do rio São Francisco, no então município de Glória, ficaram conhecidas como pouso das boiadas que cruzavam o sertão, pousavam por uns tempos na região e seguiam viagem até Feira de Santana, grande pólo comercial da época. A criação de gado era um dos esteios econômicos da região. O outro suporte econômico da época eram os engenhos de produção de açúcar.
O nome Paulo Afonso, oriundo da Cachoeira, também nomeou o complexo de usinas hidrelétricas instaladas na região, a partir de 1949, cerca de um ano depois da criação da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco, em março de 1948, e chamadas de Usinas PA I, II, III e IV da Chesf e a cidade que nasceu em 28 de Julho de 1958, dez anos depois da criação da Hidrelétrica.


Memórias de uma cidade cinqüentenária:
Delmiro Gouveia e a Chesf



A história de Paulo Afonso não pode estar dissociada dos atos pioneiros que antecederam a sua criação.
Um desses marcos de busca de desenvolvimento aconteceu no início do século XX, quando chegou a esta região o cearence de Ipu, Delmiro Augusto da Cruz Gouveia.
Delmiro Gouveia, cearense que chegou à Vila da Pedra,(hoje Município de Delmiro Gouveia) em 1903, é mostrado por Tadeu Rocha em seu livro Delmiro Gouveia, o Pioneiro de Paulo Afonso, como grande empreendedor, tendo sido o precursor de muitas novidades no Nordeste: da Vila Operária, do automóvel, da construção de estradas de rodagem, da energia elétrica, ao criar em 1913, nas margens alagoanas da Cachoeira de Paulo Afonso a Usina Angiquinho. Delmiro foi também pioneiro da água encanada(levada de Angiquinho para a Vila da Pedra, a 24km), do telégrafo, do telefone, da tipografia, do descanso semanal remunerado para seus empregados, do cinema, da alfabetização de crianças, jovens e adultos.
O Irrequieto comerciante de algodão, peles e couros, homem viajado para a Europa, criou o Shopping Center do Dérbi, no Recife, fundou a Companhia Agro Fabril Mercantil em Pedra, hoje Delmiro Gouveia onde fabricava as linhas de cozer das marcas “Estrela”, para uso nacional e “Barrilejo” para exportação.
Conta J. Magalhães Martins que Delmiro, “já em 1914 começou a abrir estradas pelas quais eles e seus auxiliares pudessem viajar com rapidez nos 4 automóveis que foram importados. As estradas iam primeiro à cachoeira e às localidades mais próximas, estendendo-se depois até às linhas férreas da Great Western, alcançando Garanhuns e até Quebrangulo, num total de 520 quilômetros de estradas carroçáveis.”
Homem de tantos empreendimentos, é com Angiquinho que ele abre o caminho para que 36 anos depois a Chesf, fruto de sua visão futurista, comece a construir a suas usinas em Paulo Afonso e a mudar radicalmente a região Nordeste que tem duas vidas bem distintas a de antes e a de depois da Chesf.
Tão grande foi a influência de Delmiro Gouveia que houve quem defendesse o seu nome para o município de Paulo Afonso.
A Chesf, nascida dez anos antes de Paulo Afonso, chegou a empregar mais de 12 mil pessoas na construção de suas barragens e primeiras usinas.
A pequena Usina PAI, inaugurada em 15 de janeiro de 1955, era vista com grande exagero e os mais céticos diziam que a sua geração de 180 megawats seria suficiente para atender ao Nordeste até o ano 2000. Hoje, a Chesf produz mais de 10.700 megawats de energia, o Nordeste já conviveu com pesado racionamento e recentemente teve que importar milhares de megawats para atender ao mercado consumidor na região.
A população de Paulo Afonso foi sendo multiplicada com a chegada dos milhares de nordestinos para a construção das obras da hidrelétrica.
Qaundo veio a emancipação a Vila Poty já possuia 25 mil habitantes. Hoje são mais de 100 mil. E o rio São Francisco, a Chesf, as belezas naturais podem proporcionar desenvolvimento ainda mais intenso, consolidando o município como pólo regional.
Essas possibilidades de crescimento foram vistas por pioneiros e por poetas, estudiosos da região. O próprio primeiro presidente da Chesf, Antônio Alves de Souza deixava registrado no livro Paulo Afonso uma visão de futuro brilhante para esta região.
O pauloafonsino Edson Mendes, declara em versos ufanistas: “Eu sou filho do raio, e com tal energia eu nasci na Bahia, Brasil, em Paulo Afonso, oficina geral, fole oficial do Brasil”.
Também Luiz Gonzaga e Zé Dantas traduziram na canção Paulo Afonso a sua expectativa de um futuro promissor, que já se deslumbrava nos anos 50: “ Delmiro deu a idéia, Apolônio aproveitou, Getúlio fez o Decreto e Dutra realizaou...Olhando pra Paulo Afonso, vejo indústrias gerando riquezas”...
O jornalista Théofilo Andrade escreveu em O Jornal, do Rio de Janeiro em julho de 1969: “Paulo Afonso não é somente uma fábrica de energia elétrica para o Nordeste do Brasil, mas também um núcleo de civilização no seu sentido mais largo, a levantar o nível de cultura, de saúde, de instrução dos sertanejos que defendem o seu lugar ao sol, às margens do São Francisco”.
E Apolônio Sales, fundador e ex-presidente da Chesf, deixava no relatório da empresa em 1970: “A cidade e o município de Paulo Afonso, nascidos ambos em decorrência das obras de instalação das usinas hidrelétricas que abastecem de energia todo o Nordeste são hoje núcleos de desenvolvimento dos mais intensos no sertão”.
Ao completar o seu Jubileu de Ouro, Paulo Afonso, tendo a Chesf como parceira, tem tudo para dar um novo salto de desenvolvimento.

A cidade da Chesf e a Vila Poty

O Diário Oficial da União nº 228, de 9 de outubro de 1945 publica, em sua Seção I – Atos do Governo – o Decreto-Lei nº 8031, de 3 de outubro deste ano que “autoriza a organização da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco”. “Art. 1º - Fica o Ministério da Agricultura autorizado a organizar uma sociedade por ações, com séde e foro na cidade do Rio de Janeiro, destinada a realizar o aproveitamento industrial progressivo da energia hidráulica do rio São Francisco.” Era o governo de Getúlio Vargas.
Na mesma data o Decreto nº 19.706 limitava a área de ação da Chesf, compreendida numa circunferência de 450km de raio cujo centro é a Cachoeira de Paulo Afonso. As mudanças políticas no Governo Federal adiaram a criação da Chesf, que só em 15 de março de 1948, no governo de Eurico Gaspar Dutra, teve a sua primeira diretoria constituída.
Começaram as obras da primeira usina da hidrelétrica em Paulo Afonso e a construção da Barragem Delmiro Gouveia para fechar o rio impetuoso, obra genial de nordestinos sob a liderança do engenheiro Octávio Marcondes Ferraz, diretor técnico da Chesf.
A chegada da Chesf na região causou grande reboliço no Nordeste. Milhares de nordestinos chegavam para a grande obra. Houve um tempo em que eram mais de 11 mil empregados.
Com a construção da primeira usina foi-se erguendo um grande acampamento, na verdade vilas enormes com centenas de casas de vários tipos e toda uma infra-estrutura necessária para oferecer aos milhares de chesfianos, escolas, clubes sociais, assistência médica.
A cidade da Chesf foi planejada com um Bairro Operário, chamado Vila Alves de Souza onde ficavam os empregados mais humildes, o Clube Operário – COPA – a Igreja de São Francisco, cooperativa da Chesf (o supermercado da época) o mercado público e a feira livre (onde hoje funciona a UNEB), o Banco da Bahia, ao seu lado, as Escolas Murilo Braga (hoje Carlina), Alves de Souza (que até há pouco abrigou a DIREC), Adozindo Magalhães de Oliveira (one funcionou o Escola Montessori) e o campo de futebol (hoje Estádio Álvaro de Carvalho), o Posto Médico Infantil (hoje APAE), a Casa de Hóspedes, (para hospedar os empregados menos graduados que chegavam para serviço temporário na hidrelétrica), o Hospital Nair Alves de Souza.
Em outro bairro, o General Dutra, ficavam as residências dos empregados mais graduados, engenheiros, chefes de repartições. Ali também estava o Clube Paulo Afonso, freqüentado por esses empregados e o Ginásio Paulo Afonso, onde estudavam seus filhos, e a Casa da Diretoria, onde se hospedavam os diretores da empresa, autoridades brasileiras, inclusive presidentes da República que visitavam as obras da Chesf.
Planejada, intensamente arborizada, a cidade da Chesf era um contraste com a Vila Poty, que crescia ao seu lado, desordenadamente, sem água, sem luz elétrica, sem qualquer urbanização.
Era chamada de Vila Poty porque grande número de suas casas, eram forradas e cobertas por sacos de cimento desta marca, usado em grande quantidade na construção das barragens da Chesf.
Do mesmo modo, existe, no lado alagoano, um povoamento da Chesf chamado Vila Zebu, marca do cimento utilizado pela hidrelétrica naquele lado da barragem.
A Vila Poty não tinha nem escolas. A primeira, chamada Escola Evangélica Antônio Balbino, foi criada por uma iniciativa de Gilberto Oliveira e João Cartonilho e deu origem ao Centro Evangélico de Recuperação Social que fez 50 anos em abril de 2008. Com o CERSPA veio depois o Ginásio e Colégio Sete de Setembro, já em 1964.
Separando estas duas realidades, com define Abel Barbosa “a Vila Poty, dos pobres e miseráveis e a cidade da Chesf, dos ricos e abastados”, a hidrelétrica construiu um cerca de arame farpado com cerca de um quilômetro, da guarita principal da empresa até o quartel do exército, depois piorado quando se transformou num muro de pedras.
Essa separação trouxe muitos dissabores e discórdia entre políticos pauloafonsinos que atuavam como vereadores na Câmara Municipal de Glória, quatro deles eleitos em 1954 pelo Distrito de que Paulo Afonso criado em dezembro de 1953, e os dirigentes da Chesf.
E surgiram vários movimentos para a emancipação política de Paulo Afonso, o que lhe permitiria ter maiores condições de crescimento e de autonomia em relação à Chesf. À frente desses movimentos, os vereadores Abel Barbosa, José Rudival, e D. Risalva e seu esposo Raimundo Toledo, estudantes do Ginásio Paulo Afonso e escoteiros do Chefe Abel e moradores da Vila Poty, como Luiz Inocêncio, em cuja casa eram realizadas as reuniões secretas, à luz de candieiro onde se traçavam os planos para a emancipação que aconteceu, depois de muitas lutas e até ameaças de morte, em 28 de julho de 1958.

A emancipação política de Paulo Afonso

Até a aprovação da Indicação de autoria de Abel Barbosa, na Câmara de Glória, em outubro de 1956 e da homologação da Lei Estadual 1.012 da emancipação política de Paulo Afonso, pelo governador Antônio Balbino de Carvalho em 28 de julho de 1958, foram muitos os movimentos, reuniões secretas, discursos, agitação vividos em Paulo Afonso e em Glória.
Segundo relata D. Risalva Toledo, testemunha ocular da história, “a primeira reunião, secreta, realizada na casa de Luiz Inocêncio, sob a luz de um candeeiro, aconteceu em março de 1952”.
Antes disse, confirma Abel Barbosa, “desde 1950, já aconteciam movimentos discretos, conversas de pé-de-orelha com esse propósito”.
Estas pessoas, que viveram intensamente cada um dos momentos que antecederam as sessões da Câmara Municipal em Glória, descrevem esses tempos como “de medo, muita tensão, inquietação, tentativas de morte para Abel Barbosa, muita perseguição por parte de alguns dirigentes da Chesf, o que resultou até na demissão de funcionários da hidrelétrica como Gilberto Leal, Zezito do Cartório e outros” como afirma D. Risalva.
Em dezembro de 1953 a Vila Poty passa a ser Distrito de Glória. Em 1954, o distrito elege 4 dos nove vereadores da Câmara de Glória. “Ainda assim foi muito dura a luta para se conseguir aprovar a Indicação para a emancipação de Paulo Afonso”, diz Abel Barbosa.
Foram sessões de intensa movimentação na Câmara de Glória, nos dias 8, 9 e 10 de outubro de 1956. Surgiram duas indicações como mesmo objetivo: a emancipação política de Paulo Afonso. Uma, de autoria do vereador Abel Barbosa e outra de autoria do vereador José Ivan de Souza, que acabaram sendo apresentadas conjuntamente.
Um dos votantes foi o vereador Moisés Pereira, que mesmo doente fez questão de comparecer e votar pela emancipação. Para isso, segundo o pioneiro Diogo Andrade Brito, Abel providenciou um Jeep para transportar Moisés Pereira e assegurar a sua presença e o seu voto na Câmara de Glória, distante 30 km de Paulo Afonso. O seu estado de saúde levou a várias interrupções da sessão e, acredita-se que a sua tenacidade tenha influenciado outros vereadores.
A Indicação para o desmembramento do Paulo Afonso do Município de Glória foi aprovada e encaminhada à Assembléia Legislativa do Estado da Bahia, no dia 10 de outubro de 1956. Ali, a atuação dos deputados Otávio Drumond e Batista Neves, ambos do PTB, mesmo partido de Abel, garantiram a aprovação do Projeto de Lei nº 910/57, do deputado Clemens Sampaio, propondo a criação do Município de Paulo Afonso, o que foi aprovado pelos deputados baianos e se transformou na Lei Estadual nº 1.012/58, sancionada pelo governador Antônio Balbino no dia 28 de julho de 1958 e publicada no Diário Oficial no dia 2 de agosto de 1958.

O primeiro prefeito e os primeiros vereadores

A primeira eleição, foi já em 07 de outubro de 1958, quando foram eleitos o 1° prefeito, apoiado pela Chesf, Sr. Otaviano Leandro de Moraes, pernambucano da cidade Sertânia, que era comerciante. Possuía um grande armarinho onde se vendia de tudo, chamado Armazém Sertânia.
Segundo os vereadores da época, “o prefeito Otaviano quase nada pôde fazer. Os apoios prometidos pela Chesf não chegaram e a cidade não tinha nada”, diz a pioneira vereadora Lisette. Diogo acrescenta: “O próprio prefeito, as vezes, no fim do mês, pagava a alguns trabalhadores com bolacha, açúcar, feijão, tirando do seu armazém. A renda de Paulo Afonso ficava para o município, Muitos não pagavam, então para cobrar tinha que ser com cuidado, tivemos que ensinar, que mostrar que todo mundo tem que pagar imposto, então com muitas dificuldades, falta de policia, falta de tudo só com nossa boa vontade.”
Na mesma eleição foram eleitos os oito vereadores da primeira legislatura da Câmara Municipal de Paulo Afonso. Quatro deles perenciam ao PSD (Partido Social Democrático): Diogo Andrade Brito, Noé Pereira dos Santos, Lisette Alves dos Santos e Dinalva Simões Torinho, esta eleita a primeira presidenta da Câmara. Pelo PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) foram eleitos José Rudival de Menezes, José Freire da Silva e Luiz Mendes Magalhães, que era operador da Chesf. Pela UDN (União Democrático Nacional), foi eleito o Manoel Pereira Neto.
Segundo o pioneiro Diogo Andrade Brito, “formada a 1ª Câmara de Vereadores, começamos a trabalhar, com quase nenhum recurso. Hoje o vereador tem assistente, computador e nós não tínhamos nada. Posso dizer que nas enchentes aqui, as ruas não tinham calçamento e os vereadores tinham que pegar na enxada, na pá, para desentupir esgoto, isso sem ninguém falar em remuneração. Era capaz da gente perder o mandato se falasse nisso. Alguém pergunta: como ser vereador assim? Ser vereador de graça, era a grande vaidade de ser autoridade, ser um vereador naquele, tempo valia mais do que um deputado hoje. Nós, como vereadores, tínhamos aquele destaque, aquela vaidade, sobretudo pensando no futuro. Nós plantamos, semeamos a semente aí no solo, esperando, mas não que chegasse aonde chegou, de sorte quando eu vejo a cidade bonita, progressista, aí me sinto orgulhoso. Veja, Paulo Afonso hoje. Somos referência e eu fico feliz com tudo isso porque nós plantamos a semente.”
Lisette também fala destas dificuldades iniciais e do orgulho do seu pioneirismo pouco reconhecido nos dias atuais. “As dificuldades eram muitas, mas a gente queria fazer alguma coisa e trabalhava com amor e sem remuneração e se fazia muita coisa. Naquele tempo nova, cheia de idéias, recém formada, e a gente lutava, visitava muito a zona rural, fazia um trabalho de educação, mas a gente atuava. Diogo, essa turma toda amiga, então nós éramos muito unidos, trabalhávamos, não perdíamos reunião, participávamos de tudo e a vontade de fazer muita coisa, mas não conseguia. Hoje eu digo, sempre fico triste, por que nós não temos uma placa da 1ª Câmara de Paulo Afonso.”

Presença de Abel Barbosa no cenário político de Paulo Afonso

A necessidade crescente de investimentos no Distrito de Paulo Afonso, que crescia intensamente a cada dia, a falta de recursos para esses investimentos, centralizados em Glória, as distâncias dos serviços públicos, cartórios, Prefeitura, Câmara de Vereadores, também estabelecidos na séde do município, a 30 quilômetros de Paulo Afonso, somados com os atos discriminatórios dos dirigentes da Chesf que coibiam o livre trânsito dos moradores da Vila Poty no Acampamento da hidrelétrica e a perseguição política que esta empresa fazia com os seus adversários, chegando a demitir empregados como Gilberto Leal, Zezito do Cartório e outros por pertencerem ao “grupo de Abel”, foram fatores que acirravam a cada dia os ânimos e incendiava a campanha para a emancipação política de Paulo Afonso.
Dentre os pioneiros desse movimento, destaca-se um baixinho, de um metro e meio de altura, natural de Pesqueira/PE, que chegou em Paulo Afonso no dia 4 de setembro de 1950 para o sepultamento do seu pai, João Barbosa da Silva, pedreiro, trabalhador da empresa que construía as casas tipo “O” para a Chesf. Por insistência de sua mãe, Quitéria Maria de Jesus, nome de colégio estadual no bairro Tancredo Neves, “acabei ficando por uns tempos que já duram 58 anos”.
Em declaração no livro Paulo Afonso - de Pouso de Boiadas a Redenção do Nordeste, Abel fala de sua atuação política em Paulo Afonso: “Político atuante, eu sempre fui, desde os 14 anos quando trabalhava nas campanhas políticas de Apolônio Sales, Agamenom Magalhães e outros políticos no Estado de Pernambuco, nas cidades de Pesqueira, Canhotinho, Catende e Angelim, de onde vim para Paulo Afonso”.
Aqui foi o primeiro chefe de escoteiros o que lhe rendeu a alcunha de Chefe Abel, o vereador que nunca recebeu o título de Cidadão de Paulo Afonso, embora tenha sido o autor do Projeto de Lei que se transformou em Lei da Emancipação Política deste município diz os motivos que o levaram a enfrentar poderosos, até sofrer atentados nessa luta pela emancipação:
“A discrimação revoltante entre a cidade da Chesf, dos ricos, e a Vila Poty, dos miseráveis, irmãos separados por uma cerca de arame farpado, que conseguiu ser piorada quando em seu lugar ergueram um grotesco muro de pedras, foi minha bandeira de campanha para vereador pelo Distrito de Paulo Afonso na Câmara de Glória, em 1954”.
Nesse ano, quatro candidatos do Distrito foram eleitos: Abel Barbosa, o mais votado, Otaviano Leandro de Morais, que seria o primeiro prefeito de Paulo Afonso, em 1958, Hélio Morais de Medeiros, conhecido como Hélio Garagista e Moisés Pereira de Souza.
Como político e chefe dos escoteiros, tinha muitos seguidores e era muito querido pelos mais humildes. Contam seus contemporâneos que certa vez um desses casebres humildes da Vila Poty estava em chamas e uma criança estava dentro da casa. Abel pediu que lhe jogassem um balde água, enrolou a cabeça numa toalha molhada e entrou no meio das chamas saindo do outro lado, chamuscado, com a criança viva nos braços. Virou herói.
Abel minimiza seu ato dizendo que “os incêndios nesses barracos eram coisa freqüente.”
Outro fato marcante em sua trajetória foi quando, “em pleno gozo dos seus direitos políticos, como vereador, foi impedido de entrar no Acampamento da Chesf, onde estavam todos os serviços públicos de Paulo Afonso, por uma decisão do então administrador da época, Sílvio Quintela” diz José Rudival, um dos abelistas também impedido de entrar na Chesf.. “Já no dia 4 de setembro o grupo de escoteiros dirigido por Abel foi impedido pela Chesf de participar do desfile cívico do dia 7 de setembro, que era organizado pela hidrelétrica.” E acrescenta Rudival: “Com a proibição da nossa entrada na Chesf, os ânimos se exaltaram. A proibição se estendia a outros abelistas como Pedro Mendes, José Freire da Silva, Ivan Vicente Ferreira e outros. Decidimos então entrar na marra. Abel enrolou-se com a Bandeira do Brasil e seguimos direto para a casa do Juiz, Dr. Hélio Alves da Rocha, que morava próximo à Casa de Hóspedes, na Vila Alves de Souza. Pouco depois da nossa chegada, a casa do juiz estava cercada por cerca de 15 guardas da Chesf, comandados pelo seu chefe, Nilo Fan. O juiz mandou a guarda se retirar e, felizmente, não houve confronto”.
O fato chegou ao conhecimento do governador Antônio Balbino que determinou a transferência de órgãos públicos como Banco e Correios para a Vila Poty.
Abel Barbosa, mesmo com o mérito de ter conseguido a emancipação política de Paulo Afonso, candidatou-se para ser o seu primeiro prefeito mas, embora tivesse conseguido uma excepcional votação, foi derrotado por Otaviano Leandro de Morais, apoiado pela Chesf.
Em sua carreira política, além dos quatro anos como vereador de Paulo Afonso na Câmara de Glória, somou outros 20 anos na Câmara Municipal de Paulo Afonso, muitos deles como seu Presidente.
Sendo Presidente da Câmara, assumiu a Prefeitura por um ano e cinco meses, de 14 de maio de 1974 a 16 de outubro de 1975, em substituição ao Prefeito Edson Teixeira Barbosa que renunciou para tentar eleger-se Deputado Estadual, o que não conseguiu.
Depois, Abel Barbosa voltou a assumir o cargo de Prefeito de Paulo Afonso, ao ser nomeado pelo Governador Antônio Carlos Magalhães e ficou no cargo de 04 de agosto de 1979 a 31 de dezembro de 1985, por 6 anos e cinco meses.
Somados os mandatos, Abel Barbosa foi prefeito que ficou mais tempo governando o município de Paulo Afonso. Foram 7 anos e 10 meses. Também foi o vereador que mais tempo exerceu a vereança. Foi eleito vereador por Paulo Afonso, em Glória, por quatro anos, de 1954 a 1958 e outros 17 anos na Câmara Municipal de Paulo Afonso, de 1963 a 1967, de 1971 a 1983
Continuou atuando na política até recentemente quando, após tentar sem resultado mais uma eleição para vereador, recolheu-se a uma casinha humilde, alugada na periferia da cidade no bairro que já se chamou Barreira do Inferno e hoje se chama Jardim Aeroporto. Vive sozinho e se mostra ressentido com as pessoas, especialmente os políticos a quem ajudou a vida inteira e que dele nunca se lembram, nem para uma visita despretensiosa.

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